Fenda

Confeccionados a partir do acabamento de costura em vivo, os trabalhos da série Fenda operam num território liminar entre pintura, objeto e superfície têxtil, onde a imagem emerge menos pela adição de matéria do que pela incisão; a fenda como gesto inaugural. Um intervalo tensionado entre superfície e profundidade que atua como unidade formal e conceitual ambiguamente — não é exatamente vazio nem linha. O plano deixa de ser contínuo e passa a ser atravessado por marcações que aparecem em gesto quase industrial. As fendas atuam como unidades de medida, como se o universo contido na obra estivesse sendo contado, ritmado ou cartografado.

O vivo, tradicionalmente associado ao reforço e à contenção da borda, aqui desloca sua função: não encerra, mas abre. Cada corte-costura é um acontecimento mínimo que interrompe o campo cromático e o transforma em espaço ativo. A técnica deixa de ser um recurso periférico para se tornar o próprio campo de investigação: um modo de pensar a forma a partir da interrupção, de construir presença a partir do corte e de fazer da superfície um lugar de tensão contínua entre ordem e sensibilidade.

Gabriel Babolim

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