Palíndromo

Um palíndromo implica reversibilidade e simetria temporal e espacial: algo que pode ser lido de trás para frente sem perder o sentido, configurando variações de um mesmo enunciado. Rosalind Krauss, ao discutir a “grade” (the grid), aponta que a repetição modular rompe com a narrativa e instaura um campo autônomo, quase linguístico, no qual a imagem passa a operar como texto. Nas obras da série, as linhas verticais funcionam como uma espécie de escrita abstrata — não legível, mas estruturada — que pode ser percorrida em múltiplas direções, como um palíndromo. A semelhança com estruturas codificadas, como códigos de barras, padrões têxteis, troncos de árvores, chuvas ou dados digitais, sugere uma tensão entre natureza e sistema, aproximando sua produção em gravura de artistas como Agnes Martin e Mira Schendel.

Há ainda uma dimensão metalinguística: a gravura, por natureza, é reprodutível, assim como o palíndromo se baseia na repetição estruturada. Técnica e conceito, portanto, convergem: a matriz gera múltiplos do mesmo modo que o palíndromo produz sentido por meio do espelhamento. Preti estabelece, assim, uma relação entre minimalismo e lirismo: composições formalmente econômicas, mas densas em ritmo, textura e vibração visual.

Gabriel Babolim

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