RUMOR’ROSA
Exposição individual
Galeria Pilar
Curadoria de Ana Avelar
08/08/26 - 12/09/26
Um rumor não se impõe: aproxima-se lentamente, infiltra-se na percepção. Em Rumor'rosa, a cor rosa assume justamente essa condição. Não sendo apenas elemento decorativo característico de um estereótipo da feminilidade, mas como uma matéria sensível que atravessa as obras, modulando diferentes intensidades de sua presença. Em algumas pinturas, o rosa parece decantar lentamente sobre a superfície, dentro de uma chuva de cores pastéis que parece obedecer ao tempo lento da gravidade. Há ainda trabalhos em que linhas — bordadas ou pintadas — irradiam do centro para a periferia da tela, em vibrações contínuas.
Todos esses movimentos possuem algo em comum: recusam o gesto espetacular. São lentos, persistentes e cumulativos – como nas temporalidades próprias das práticas têxteis e de outras artes historicamente associadas ao trabalho das mulheres. Assim, a imagem não explode diante dos públicos; ela se constitui pela repetição de pequenos acontecimentos. Em muitas pinturas e bordados, a sutileza formal aproxima-se da técnica do pontilhismo, fazendo da acumulação paciente o próprio método compositivo da obra. Cada marca parece discreta quando isolada; juntas, revelam uma impressionante capacidade de transformação.
Essa persistência aproxima o trabalho de Fabiana Preti da reflexão proposta pela filósofa francesa Anne Dufourmantelle. Para a filósofa, a suavidade não corresponde à passividade nem à renúncia ao conflito. Trata-se de uma potência com intensidade própria, uma força simbólica capaz de transformar pessoas e situações sem recorrer à violência. Sua singularidade reside precisamente em constituir uma passividade ativa: uma forma de resistência que atua sem reproduzir a lógica do enfrentamento, deslocando as estruturas a partir de dentro.
É essa ética da suavidade que atravessa a produção de Preti. Mais do que uma escolha cromática ou formal, ela constitui um modo de habitar o mundo. A artista aposta na lentidão em um tempo de aceleração, na delicadeza em um contexto saturado por imagens agressivas, na permanência de pequenos gestos em oposição aos rápidos impactos visuais. Suas obras sugerem que cuidar também pode ser uma prática estética e que a arte é capaz de oferecer outras pedagogias da percepção — formas de olhar, sentir e estar no mundo menos orientadas pelo estrondo do que pela escuta.
A obra de Preti sussurra, por meio de cores e pinceladas suaves, o contorno de uma presença que se contrapõe à lógica acelerada e frequentemente violenta das imagens de alto consumo contemporâneas. Em suas pinturas, a suavidade nega a fragilidade, agindo como uma força silenciosa capaz de deslocar regimes de percepção já endurecidos.
Em vários momentos, sua pesquisa aproxima-se de questões colocadas pelo movimento Pattern and Decoration (P&D), surgido nos Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980. Em oposição às hierarquias modernistas que privilegiavam a austeridade formal e relegavam ao campo do decorativo práticas como o bordado, a tapeçaria, a estamparia e a cerâmica, artistas como Miriam Schapiro e Joyce Kozloff reivindicaram esses repertórios como espaços legítimos de invenção estética e de crítica feminista. Ao incorporar padronagens, ornamentação, cores intensas e procedimentos artesanais, o grupo questionou a oposição belas artes e artes aplicadas, recolocando no centro da produção artística saberes historicamente associados ao trabalho das mulheres. Embora situada em outro contexto histórico, o trabalho de Preti compartilha dessa operação ao fazer da repetição paciente, da manualidade e da delicadeza modos de resistência às hierarquias que ainda distinguem o monumental do íntimo.
Assim, as composições de Preti, marcadas por uma abstração sensível, organizam-se em delicados murmúrios entre cheios e vazios. As formas articulam-se por encaixes sutis, evocando, por vezes, a inteligência tátil dos brinquedos de madeira da infância, em que aprender significava também tocar, ajustar, experimentar relações espaciais e afetivas.
Essa mesma lógica reaparece nas esculturas e em parte das pinturas de formas mais densas. Nelas, a geometria aproxima-se de brinquedos de encaixe, nos quais volumes semelhantes se articulam revelando, simultaneamente, presença e intervalo, massa e vazio. A paleta incorpora tonalidades mais saturadas ao lado dos rosas e dos pastéis, sem abandonar a atmosfera de delicadeza que percorre toda a exposição. A suavidade permanece, agora sustentada por formas de maior densidade, mostrando que delicadeza e consistência não são termos opostos, mas dimensões complementares de uma mesma experiência.
Preti propõe, assim, uma pedagogia das formas, na qual a doçura — cromática e formal — opera como potência de transformação subjetiva. Como sugere Dufourmantelle, a suavidade não se opõe à força; ela constitui uma força de outra ordem, capaz de transformar sem violentar. Em sua obra, a delicadeza de um rumor de formas e cores torna-se, precisamente, uma forma de resistência diante da dureza dos cantos vivos e das geometrias impositivas que tantas vezes organizam nosso mundo visual.
Em Rumor'rosa, a suavidade constitui uma ética do olhar. As pinturas, bordados e esculturas convidam os públicos a experimentar outro regime de atenção, no qual a transformação acontece pela permanência; pela delicada persistência de gestos mínimos que demonstram, quase em silêncio, como neles reside a força.
Texto de Ana Avelar
Fotos: Felipe Berndt