FRESTA
Gruta
04/10/25 - 01/11/25
Que importa o sentido, se tudo vibra? (Alice Ruiz)
Thierry Freitas
À primeira vista, a reunião das produções de Fabiana Preti, Guilherme Callegari e Pedro Campanha parecia apontar mais para suas dicotomias do que para seus pontos de contato. Esse foi, inclusive, um dos temas que atravessaram nossas conversas ao longo dos últimos meses: seria esta uma exposição que acolheria a diferença como vetor de potência, ou haveria um território comum no qual cada artista pudesse partilhar, a seu modo, um interesse em comum?
Aos artistas, minha proposta inicial foi a de recriar, ainda que de forma diminuta, a atmosfera de acúmulo característica dos ateliês. Em vez de dispormos os trabalhos lado a lado, criamos constelações. Assim, apostamos na sutileza das aproximações para que as obras não interagissem pelo choque, mas pela delicadeza dos intervalos: atravessando-se, contaminando-se pelas frestas.
Por mais que uma exposição nasça a partir de uma conjunção de ideias e conceitos, só a experiência do espaço e tudo o que ele envolve (a presença, o corpo em deslocamento, a visada em perspectiva), é capaz de revelar nuances que escapam ao planejamento.
In loco, a resposta para a questão sobre esta ser uma exposição de aproximações ou de tensionamentos me pareceu óbvia: trata-se das duas coisas.
São, sim, obras muito distintas, a começar pela técnica - pintura, escultura e bordado -, mas que compartilham certas lógicas compositivas, como a presença do grid, a valorização da manualidade e a gestualidade da cor como elemento instaurador da diferença dentro de uma possível aparência serial.
De Fabiana Preti, estão presentes bordados e esculturas. Dois bordados, de tamanhos distintos, ocupam o início e o final da mostra. Gosto de pensar em suas localizações como uma metáfora para prólogo e epílogo: uma afirmação da gestualidade como meio expressivo e independente, ideia que percorre toda a exposição.
Suas obras não tratam a trama como mero suporte, mas como elemento compositivo em que a transparência possui a mesma relevância que as áreas densamente trabalhadas com linha. Das inserções que a artista realiza, surgem formas verticais que, pela densidade, lembram estruturas de casulos agarrados às fibras do tecido.
Essa verticalidade também ecoa no conjunto escultórico apresentado no vão central. Denominado Borboletário, flutua exuberante pelo espaço, dissolvendo as fronteiras entre frente e verso. Feitas industrialmente, as peças destacam-se pela precisão do corte que gera formas sinuosas, acolhendo a cor apenas nas laterais, como numa aparição.
Curvas semelhantes atravessam as pinturas de Guilherme Callegari, cuja produção recente migrou das cores saturadas e caracteres associados ao mundo industrial para uma experimentação minimalista, em que a superfície pictórica é explorada como campo fértil de variações cromáticas. Com uma paleta orgânica e diluída, suas pinceladas sempre visíveis operam como elementos compositivos. As obras não explicitam formas, mas insinuam atmosferas, sobretudo no conjunto disposto no início da sala. Ali, a progressão luminosa e a justaposição entre linhas retas e curvas arredondadas evocam as cenas de um nascer do sol, sugerindo a aparição de um horizonte banhado de luz.
Já Pedro Campanha experimenta a pintura a partir de uma esquematização de formas e dimensões. Um de seus principais interesses recai sobre as reações que diferentes matérias-primas podem gerar quando submetidas a um mesmo modelo. Trabalhando sobretudo com têmpera e óleo, o artista cria composições em que retas e ângulos se desdobram em variações rítmicas. O resultado são cenas que guardam semelhança estrutural entre si, mas que, vistas em conjunto, revelam contrastes entre transparências, brilhos e opacidades. Essa insistência no modelo, no entanto, não indica repetição, mas uma investigação consistente das possibilidades plásticas da forma.
Fresta constrói-se como uma exposição que atravessa a tensão entre diferenças e aproximações, instaurando um campo relacional em que cada gesto se refrata no coletivo, gerando ressonâncias sutis que percorrem as obras e, esperamos, a experiência de quem as observa.