RECONVEXO
Exposição Individual
Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica
Curadoria de Gabriel Babolim
3/10/2026 - 1/11/2026
Chuva que lança a areia do Saara
Partindo do neologismo cunhado por Caetano, o conjunto de trabalhos articula a geometria de maneira binomial: côncavo e convexo, frente e verso em interlocuções que expressam materialidades entre a pintura, a escultura, o bordado e a instalação. Existe um deslocamento entre as formas na pintura que assumem corpo em madeira; torções que se desenvolvem no movimento do olhar e do espectador; jogos de escala e de linguagens, o artesanal e o artístico, formal e sensível. O trabalho de Fabiana Preti articula esses entre-espaços. Em uma produção que exige presença, a artista dialoga a rigidez da produção abstrata com a sensibilidade do fazer manual, admitindo, por muitas vezes, a imperfeição do gesto, buscando as dinâmicas vitais entre equilíbrio e desequilíbrio.
No trabalho de Preti, as formas se organizam em uma dinâmica temporal, marcada pela repetição ativa do gesto em arranjos cadenciados por seções de cor, como nas séries Chorinho e Borboletário — mas não se esgotam nessa temporalidade que a produção artística faz necessária. Michael Fried, crítico e historiador de arte estadunidense, discorre sobre essa relação entre pintura e suporte na arte moderna: “As formas e superfícies são apenas aquelas que podem ocorrer plausivelmente dentro e sobre um plano retangular; [este] passa a ter um tempo de vida limitado.” O tempo, como articulam Gullar e Oiticica, é também virtual. É também o tempo necessário para que se estabeleça o diálogo entre obra e sujeito e, nesse sentido, a relação com o Penetrável de Oiticica revela um campo de interações entre figura, objeto, ambiente e espectador.
Através do deslocamento das estruturas modulares presentes na produção pictórica para a tridimensionalidade, a forma se constitui como presença física que ativa o espaço e a percepção do observador. Oiticica menciona que essa mudança não é somente dos meios de se produzir, mas “da própria concepção da pintura como tal [...] para uma percepção de estruturas-cor no espaço e no tempo”. Ao reorganizar um material em relação à outros adjacentes ou às suas características físicas intrínsecas, este transforma-se em "algo diferente" pois passa a "comunicar" algo diferente em decorrência da mudança de percepção do sujeito sobre ele. O resultado desse processo é o que se chama por materialidade. Os modos como essa materialidade é configurada no espaço dá origem à espacialidade, na qual "o espaço se transforma em lugar, não físico, mas social, onde se abrigam a comunicação e a cultura nas suas dimensões históricas, sociais e cognitivas."
O diálogo de Fabiana Preti com Hélio Oiticica pode ser percebido na passagem da cor e da geometria para uma experiência espacial da obra. Mais do que uma filiação direta, trata-se da convergência em torno de uma questão central das produções neoconcretas: como fazer com que a forma deixe de ser apenas algo a ser visto e passe a ser algo a ser experimentado? Enquanto Oiticica expande a cor para o ambiente e para a ação do corpo, Preti tensiona signo e imagem, investigando a maneira como a cor se condensa, se organiza e se modula dentro da própria matéria.
Reconvexo revisita, portanto, questões fundamentais da abstração moderna brasileira a partir de uma perspectiva atenta às relações entre gênero, materialidade e fazer. Ao assumir a sensibilidade em seu gesto, Preti autonomiza o trabalho, criando, como postulam Deleuze e Guattari “um bloco de sensações, onde circulam afectos e perceptos, sangue que faz a obra pulsar por si mesma.”
Texto de Gabriel Babolim